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Cidades conectadas: experiências de redes públicas de Internet sem fio em Barcelona, Taipei, Paris e Helsinque

 


FLÁVIO SILVA GONÇALVES e PEDRO RAFAEL VILELA FERREIRA
As redes de acesso sem fio estão entre os mais expressivos fenômenos que caracterizam o ambiente contemporâneo de expansão da Internet. Disponíveis em várias cidades do mundo, esses territórios virtuais, instalados por meio de conexões Wi-Fi, podem tornar-se também objetos de política pública para a democratização do acesso à Internet e inclusão digital. O Brasil, apesar do vertiginoso aumento no consumo de notebooks e smartphones, pouco investe na configuração de zonas de conexão móvel, sustentadas ou introduzidas por ações governamentais. Esse texto apresenta experiências de quatro cidades (Barcelona, Taipei, Paris e Helsinque) que constituíram estratégias para permitir o acesso gratuito à Internet pelos cidadãos. O objetivo é que o conjunto desses exemplos estimule, e até sirva como parâmetro, para que cidades brasileiras adotem seus próprios planos de oferta gratuita dos serviços de conexão sem fio. 0

 


Introdução
Odesafio de garantir conexão universal e permanente amplia-se à medida que a Internet vai se tornando essencial no cotidiano contemporâneo da sociedade. Seja para quem depende diretamente dela para resolver questões profissionais, o que é cada vez mais comum, seja para usuários que a utilizam para lidar com as mais diversas necessidades do dia a dia, das compras on-line ao acesso à conta bancária. Também já são inúmeros os tipos de serviços públicos e privados oferecidos quase que exclusivamente no ciberespaço, do relacionamento nas mídias sociais às pesquisas escolares. Independentemente das políticas nacionais de promoção do acesso à Internet, é no espaço local, representado em última instância pelas cidades, que ele se materializa. 0

 
A indispensabilidade da Internet tem estimulado a adoção de medidas locais para converter espaços sociais em ambientes de conexão permanente. É que a portabilidade do aparato tecnológico – especialmente os celulares, laptops e tablets – demanda cada vez menos o acesso isolado em favor de redes coletivas, com abrangência geográfica necessária à nova condição de mobilidade. 0

 
O objetivo deste capítulo é justamente apresentar um panorama geral sobre o modo como algumas localidades pelo mundo estão se estruturando para atender às novas exigências de acesso permanente à Internet. Os casos aqui selecionados foram definidos por serem iniciativas executadas diretamente pelo poder público, em cidades importantes de seus países, todas com a mesma finalidade: a oferta de um serviço gratuito. Adicionalmente, a escolha das experiências descritas a seguir se refere a projetos em plena operação, fora da fase experimental, o que permite visualizar cenários de um processo minimante consolidado. Também buscamos casos em que as redes sem fio estivessem distribuídas em diferentes pontos da cidade, áreas internas e externas, constituindo um amplo ambiente de acesso. 0

 
Para traçar um perfil destas experiências, este capítulo está dividido em cinco seções subsequentes. Na primeira, situamos a emergência das redes sem fio na recente reconfiguração do espaço urbano. Em seguida, apresentamos o caso de Barcelona, capital da Comunidade da Catalunha. O programa de rede wireless da cidade é considerado um dos mais importantes da Europa e possui uma das maiores abrangências entre as experiências observadas. 0

 
Na sequência, descreveremos a implantação de pontos de acesso à Internet em centenas de áreas públicas e comerciais da cidade de Taipei, capital de Taiwan. Na quarta seção, será estudado o caso de Paris, onde a Internet pública e gratuita foi instalada em museus, parques e bibliotecas. A última parte contempla a recente experiência de Helsinque, na Finlândia, com a disponibilização de acesso em repartições públicas e áreas de livre circulação. 0

 

Redes Wi-Fi
Apalavra Wi-Fi é uma abreviatura para wireless fidelity (“fidelidade sem fios”) e expressa uma tecnologia largamente utilizada para promover o acesso à Internet de alta velocidade sem a necessidade de cabos. O termo alude aos produtos e serviços que respeitam o conjunto de normas 802.11, que são faixas de frequência eletromagnéticas cujos protocolos foram desenvolvidos em 1997 pelo Institute of Electrical and Electronic Engineers (IEEE). As frequências para uso doméstico e não comercial dispensam a exigência de licença para instalação e/ou operação, o que contribuiu para a expansão da tecnologia (Bar & Galperin, 2006). 0

 
Para ter acesso à Internet por meio de rede Wi-Fi, o usuário que possui aparelho móvel (smartphone, notebook, tablet etc.) com capacidade de comunicação sem fio deve estar no raio de ação ou área de cobertura de um ponto de acesso. A maior parte dos computadores portáteis contém dispositivos para rede sem fio no mesmo padrão da IEEE. O ponto de acesso projeta o sinal a uma pequena distância, em geral cerca de 100 metros [1]. Os pontos de acesso (hotspots) geralmente estão localizados em lugares acessíveis ao público, como aeroportos, hotéis, livrarias, cafés e restaurantes, entre outros. 0

 

Actualmente, a maioria das redes Wi-Fi são desenvolvidas para substituir os cabos da Ethernet nas residências e nos escritórios, com o simples objetivo de permitir a mobilidade dos utilizadores num determinado ambiente electrónico ou num espaço físico (Bar & Galperin, 2006, p. 294). 0

 

O sucesso das redes Wi-Fi, segundo especialistas, pode ser atribuído a três fatores conjugados. Primeiro, pela característica técnica do sistema, é possível transmitir uma elevada largura de banda sem custos de cabeamento [2]. Para se ter uma ideia, uma das frequências mais básicas da rede Wi-Fi (802.11b) comporta velocidade de 11 megabits por segundo, podendo ser superior a padrões como ADSL e Rede Digital Integrada de Serviços (RDIS), esta última conhecida como rede dedicada (Bar & Galperin, 2006). 0

 
Outro aspecto atrativo para a expansão das redes Wi-Fi é a indústria de apoio vinculada ao grupo Wi-Fi Alliance, que reúne mais de duas dezenas de produtores de equipamentos no mundo inteiro [3]. Essa configuração reduziu os custos e ajudou a padronizar os equipamentos, barateando a penetração das redes. Por fim, Bar & Galperin (2006) mencionam a “escassez de medidas reguladoras”. Como as faixas de frequência são estreitas e reservadas às transmissões de pequeno alcance, as redes Wi-Fi têm pouco ou nenhum controle de licença na maioria dos países. 0

 

Por causa dessas características, os governos municipais se converteram em atores estratégicos para a expansão das redes Wi-Fi (idem, 2006). Para além das experiências descritas neste texto, existem dezenas de outros casos mais ou menos semelhantes, com envolvimento parcial ou total do poder público. 0

 

Ao prosseguir estes objectivos, os governos municipais possuem uma vantagem considerável relativamente às entidades comerciais ou grupos comunitários: controlam localizações-base de antena, na forma de postes de luz ou semáforos, todos eles produzindo energia eléctrica que pode servir para alimentar os pontos de acesso (Bar & Galperin, 2006, p. 297). 0

 

As redes públicas de acesso sem fio à Internet constituem uma possibilidade promissora no enfrentamento da exclusão digital e na democratização do acesso às novas tecnologias. De um lado, favorecem a apropriação social do aparato tecnológico e, de outro, possibilitam novos comportamentos urbanos, que afetam vários aspectos da vida social. 0

 

Cria-se nas cidades contemporâneas zonas de controle de emissão e recepção de informação digital do indivíduo, em mobilidade e no espaço público, potencializando novas práticas sociais: contato pelo tempo real e o acesso informacional (e não pelo espaço compartilhado entre corpos, tempo fluido fora da agenda fechada), banalização das conexões (relações empáticas, não solenes, laicas), formas novas de reforço identitário e social, e novos tipos de auto-exposição (YouTube, blogs, Flickr, Orkut). As cibercidades contemporâneas tornam-se “máquinas de comunicar” a partir de novas formas de apropriação do espaço urbano – escrever e ler o espaço de forma eletrônica por funções “locativas” (mapping, geolocalização, smart mobs, anotações urbanas, wireless games), trazendo novas dimensões do uso e da criação de sentido nos espaços urbanos (Lemos, 2007; p. 128). 0

 

A tendência de que as redes wireless envolvam cada vez mais partes da cidade incorpora de forma definitiva a ideia de mobilidade, considerada o fenômeno mais transformador na atual reconfiguração do espaço urbano (Lemos, 2007) pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). A seguir, vamos descrever as características gerais das redes Wi-Fi de quatro capitais. 0

 

Barcelona (Espanha)
Segunda maior cidade da Espanha, atrás apenas de Madri, Barcelona é a capital da Comunidade Autônoma da Catalunha, na região nordeste do país. A cidade possui uma população de aproximadamente 1,6 milhão de habitantes. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) da Espanha [4], em 2011, a taxa de domicílios com acesso à Internet na Catalunha somava 71%. O número é superior à média nacional (63,9%), mas também fica atrás da Comunidade Autônoma de Madri, com seus 72,2% de domicílios com acesso à rede. 0

 

A banda larga é o tipo de conexão predominante nos lares espanhóis, respondendo por 61,9% do total [5]. Na maior parte dos casos (74,9%), a tecnologia utilizada é ADSL, seguida da rede por cabos (15,8%), conexão por telefonia móvel banda larga (13,1%) e, finalmente, do acesso por redes sem fio, com sistemas via satélite, wireless e outras (8,6%). Os dados são da Comissão do Mercado das Telecomunicações (CMT, na sigla em espanhol) [6]. 0

 

A despeito do ainda reduzido número de conexões por meio de serviços de redes sem fio no país, em comparação a outras formas de acesso, Barcelona tem liderado uma política de Internet gratuita e livre para a população local, através da implantação de pontos de acesso em vias e espaços públicos. O programa Barcelona WiFi, desenvolvido pela prefeitura da cidade desde julho de 2009, já conta com 429 postos de conexão distribuídos pelos dez distritos da capital da Catalunha. 0

 

Todos os espaços fazem parte do conjunto de equipamentos públicos municipais, e incluem desde centros comunitários até os parques da cidade. De acordo com a prefeitura, é a maior rede pública wireless da Espanha e uma das mais importantes da Europa. Segundo a descrição do projeto, o Barcelona WiFi quer cumprir o objetivo de ser um dos principais instrumentos de fomento do uso social das novas tecnologias da informação e do conhecimento” (BCE, 2011) [7]. 0

 

O sinal é emitido por torres de transmissão vinculadas a cada uma das instalações. O raio de cobertura, a partir do ponto, varia de 20 a 50 metros, no caso das áreas fechadas, e de 100 a 150 metros nas áreas abertas, como parques e praças, podendo sofrer alterações de alcance ocasionadas por condições climáticas, obstáculos físicos ou mesmo interferência eletromagnética. 0

 

Basta ao interessado ir até um ponto de acesso com aparelho com conexão por rede sem fio, como computadores portáteis (laptops, notebooks ou tablets) e telefones móveis que tenham o dispositivo. Também é necessário ter instalado um navegador de Internet, como Microsoft Explorer, Mozilla Firefox e Safari, entre outros. Em geral, os pontos estão abertos de segunda a domingo, das 8h às 22h. 0

 

De acordo com a administração municipal de Barcelona, durante o primeiro semestre de 2012 a média mensal de usuários do serviço foi de 35.782 e de 78.442 acessos. Estes cidadãos visitaram mais de 5.260.000 páginas na Internet nos seis primeiros meses do ano. 0

 

O programa impede o acesso a sites de conteúdo pornográfico, violento, preconceituoso. Os usuários, entretanto, podem pedir o desbloqueio de determinados endereços, caso comprovem junto à administração do programa que não há esse tipo de referência no conteúdo acessado. Como o Barcelona WiFi é um serviço com foco na simples navegação na Internet, não pode haver troca de arquivos (como download de músicas e filmes), nem uso de videoconferência IP e telefonia (como o Skype). 0

 

A velocidade de conexão também é um desafio. No caso específico de Barcelona, por razões legais [8], a prefeitura não pode competir no mercado de telecomunicações com o serviço privado e pago, aliado ao alto custo para o tráfego de um grande volume de informações. O limite de velocidade de conexão é de 256 kilobits por segundo (Kbps). 0

 

De acordo com informações da administração municipal, o investimento realizado desde o início do programa chegou a 1,19 milhão de euros. Já os recursos utilizados para o custeio da rede chegarão, até o final de 2012, ao valor acumulado de 1,42 milhão de euros. Questionada sobre as principais dificuldades para manter e ampliar o programa, a administração afirmou: 0

 

Neste momento, com a situação econômica mundial, é certo que somos obrigados a otimizar os recursos para poder propiciar que o serviço seja o mais eficiente possível. Isso implica redimensionar a rede e realizar uma avaliação de cada ponto do serviço [9]. 0

 

Observa-se, portanto, que a crise financeira enfrentada pelo país pode afetar diretamente a ampliação das redes Wi-Fi implantadas pela administração municipal. Se considerarmos que os recursos necessários até o momento somaram pouco mais do que 2,5 milhões de euros, podemos afirmar que se trata de um investimento de pequeno porte. 0

 

Taipei (Taiwan)
Capital do Estado insular República da China (Ilha de Taiwan ou Formosa), na Ásia Oriental, Taipei é o centro cultural, econômico e político do país, que figura como um dos “Tigres Asiáticos”, alcunha igualmente atribuída a Hong Kong, Coreia do Sul e Cingapura, pelo acelerado crescimento econômico experimentado durante a segunda metade do século XX. O fato é que a cidade é mesmo um grande polo tecnológico, sede de algumas das maiores empresas no ramo de chips e semicondutores, imprescindíveis para a indústria de aparelhos de telefonia e computadores. 0

 

A população da metrópole ultrapassa os 2,6 milhões de habitantes, segundo estimativa do Departamento Nacional de Estatística [10]. É o maior centro urbano do país, com um total de 23,1 milhões de pessoas. Em 2010, o acesso à Internet estava disponível, segundo o governo, para cerca de 10,7 milhões de usuários, aproximadamente metade da população. O uso de aparelho de telefonia móvel no país é ainda maior. Números oficiais [11] registraram no mesmo ano cerca de 28 milhões de dispositivos circulando nas ruas. 0

 

O processo de digitalização da cidade iniciou-se em fevereiro de 2004, quando o governo municipal anunciou a chamada The M-Taipei Initiative (CHOU, 2005). Em parceria com a empresa Q-ware Co. foi constituída a rede Wi-Fi que entrou em operação em fevereiro de 2005, inicialmente oferecendo o acesso gratuito. Menos de um ano depois, em janeiro de 2006, o serviço passou a ser tarifado para os cidadãos interessados na conexão. Nesta época, a assinatura mensal era de aproximadamente US$ 12. Em julho de 2006, a rede estava distribuída em uma área de 134 Km² e disponível para 90% da população. Entretanto, em agosto do mesmo ano, eram pouco mais de 50 mil assinaturas do serviço chamado Wifly. 0

 

Foi em julho de 2011 que o governo local lançou um plano para instalar pontos de acesso gratuito por meio de redes sem fio, batizado de Taipei Free Public WiFi, ou Rede WiFi Gratuita de Taipei. No início do programa, o sinal foi distribuído em repartições públicas, escolas, hospitais, bibliotecas, estações de metrô e pontos de ônibus. Meses depois, o governo expandiu a rede para áreas de maior movimentação de pessoas, como cruzamentos de importantes avenidas, parques, espaços comerciais e shopping centers. De acordo com o Departamento das Tecnologias de Informação da cidade de Taipei, a rede está disponível em 4.500 pontos de acesso. Todos os 12 distritos da cidade têm cobertura, e até o final de 2012 a meta é uma ampliação para 6 mil pontos de acesso. A velocidade oferecida é de 512 kilobits por segundo (Kbps), sendo que em maio de 2012 cada ponto de acesso teve o downlink ampliado para 10 Mbps. A administração municipal estima que cerca de 500 mil pessoas utilizam o serviço por mês. 0

 

O governo municipal realizou uma oferta pública para selecionar uma empresa privada, WISP, responsável pela oferta de rede Wi-Fi em toda a cidade. O orçamento anual é de cerca de 4 milhões de dólares. 0

 

Para usufruir da conexão o usuário necessita registrar uma conta no site oficial do programa, com nome e senha. É preciso fornecer um número de telefone móvel e e-mail. Depois de configurar a senha, um código de autorização é enviado ao telefone através de mensagem (SMS). No caso de acesso através de smartphones, o próprio número do telefone funciona como login. 0

 

O procedimento é diferente se o interessado em acessar a rede for estrangeiro em visita ao país. Nesse caso, o registro somente pode ser realizado nos centros de atendimento ao turista espalhados por 48 hotéis da cidade ou em postos instalados no aeroporto internacional e nas maiores estações de metrô e de ônibus. 0

 

O acesso está disponível 24 horas por dia nas áreas externas, e no interior de áreas públicas fica limitado ao horário de funcionamento das instituições. Se o dispositivo on-line ficar ocioso por 15 minutos sem nenhuma atualização, é automaticamente desligado para evitar o desperdício da largura de banda e não afetar a utilização de outros usuários. 0

 

Paris (França)
Acapital da França é uma das cidades mais globalizadas do planeta [12]. Centro político, econômico e cultural dos gauleses, também é a região mais populosa. Com uma estimativa de habitantes que beira os 2,2 milhões, está conurbada em uma metrópole de mais de 11 milhões de pessoas [13]. 0

 

O percentual de residências com acesso à Internet em todo o país segue a média do continente e registrou, em 2011, o índice de 76%, segundo dados da própria União Europeia (UE) [14]. Nove em cada dez residências com Internet usufruem do serviço em banda larga. Mas é interessante observar o recente crescimento no acesso aos dispositivos de conexão sem fio. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee) [15], pelo menos 24% dos usuários de Internet em 2010 acessaram a rede a partir de telefones celulares, contra 9% em 2008. As redes Wi-Fi absorveram 23% dos acessos à Internet em 2010, enquanto o registro de 2008 ficou em 13,5%. 0

 

O fenômeno da mobilidade de acesso à Internet na França entra em sintonia com a iniciativa da Prefeitura de Paris, a partir da criação do programa Paris WiFi em 2007. Desde então, foram implantados terminais roteadores de sinal banda larga, espalhados por 20 distritos da cidade. A cobertura alcança a maior parte dos parques, jardins, prédios públicos, bibliotecas e museus, em um total de 260 unidades de acesso. 0

 

A utilização do Paris WiFi é gratuita. Atualmente, o contrato da prefeitura tem a operadora Orange como prestadora do serviço. A partir de um dispositivo que tenha rede de conexão sem fio, o usuário deve localizar o sinal do programa e, ao abrir o navegador, será convidado a preencher um formulário de acesso. A conexão é aberta por um período de duas horas, após o qual o serviço é desativado. Entretanto, não há limite de conexão, e o usuário que desejar prosseguir pode repetir o acesso à rede logo em seguida. 0

 

O programa também impossibilita o acesso quando a rede está congestionada. Quando isso ocorre, o usuário que tenta a conexão pelo sinal da Orange é notificado do bloqueio temporário. Há também a possibilidade dos usuários reclamarem, por telefone, sobre possíveis falhas de conexão dos terminais. Cada ponto de acesso suporta no mínimo 30 acessos simultâneos. 0

 

O serviço Wi-Fi de Paris fica disponível todos os dias entre 7h e 23h, na maior parte dos pontos. Os terminais que funcionam dentro de estabelecimentos fechados, como museus e bibliotecas, acompanham seu horário de funcionamento. Nas áreas públicas, como Champs de Mars (onde fica a Torre Eiffel) e o pátio da prefeitura, o sinal permanece disponível 24 horas por dia. 0

 

De acordo com a prefeitura de Paris, o número de usuários por mês varia entre 50 e 60 mil. O investimento realizado desde o lançamento do programa em 2007 foi de 900 mil euros para o desenvolvimento da infraestrutura, incluindo roteadores, switches e os pontos de acesso. Para a manutenção da operação do serviço são necessários atualmente 700 mil euros por ano. 0

 

Helsinque (Finlândia)
Concentrada em uma região com alto índice de desenvolvimento humano [16], ao norte da Europa, a capital da República da Finlândia é a mais populosa do país. Sua área metropolitana soma 1,1 milhão de habitantes, segundo estimativas oficiais [17]. O número de famílias com acesso à Internet, em 2011, atingiu 84% do total, valor expressivo se comparado com outros países do continente [18]. 0

 

A utilização da Internet também cresceu muito em ambientes não residenciais, tanto nos locais de trabalho quanto através de redes móveis. Pesquisa recente do Departamento Nacional de Estatísticas (Statistics Finland[19] revela que o acesso à Internet por meio de smartphones já alcança 42% da população. Outros 29% usufruem do serviço de conexão 3G e 26% acessam a rede a partir de dispositivos móveis como laptops. 0

 

Em agosto de 2006, a prefeitura de Helsinque inaugurou a primeira etapa da rede wireless de acesso gratuito em 15 pontos espalhados pela área central da cidade, como bibliotecas e escritórios da administração municipal. Em poucos meses, a rede se ampliou por todas as bibliotecas públicas da cidade, em um total de 36 pontos, mais 51 estações de acesso em parques e espaços de livre circulação. Em julho de 2012 eram 100 pontos de acesso. 0

 

Além disso, a rede também é complementada com pelo menos 57 locais de acesso em áreas comerciais, com bares, hotéis e cafés, mas voltados exclusivamente para clientes e/ou com acesso pago. Todos esses pontos podem ser localizados pelo site oficial do serviço [20]. 0

 

No caso do acesso em áreas abertas, basta ao usuário localizar a rede sem fio do seu computador ou dispositivo móvel (como celular) e fazer a conexão. Se o interessado estiver em uma das bibliotecas da cidade, será necessária uma senha para a conexão, que pode ser obtida diretamente no local. Também há computadores disponíveis nas bibliotecas gratuitamente para o caso do usuário não dispor de seu próprio aparelho. O programa de Helsinque ainda mantém um atendimento telefônico para queixas ou sugestões dos usuários, como para incluir na listagem oficial da rede pontos Wi-Fi ainda “não catalogados”. 0

 

Segundo dados do governo da cidade, o investimento inicial do programa de rede wireless, em 2006, foi de 290 mil euros e a manutenção anual é de 48 mil euros. Além disso, a rede começou uma expansão no serviço de transporte público da cidade, utilizando a tecnologia Flash-OFDM, que permite a transmissão de dados mesmo com os usuários em movimento. Já está disponível em quatro linhas regulares de ônibus e algumas composições das linhas de trens da cidade, identificáveis por meio de adesivos WLAN – avoin Internet”. De acordo com a administração municipal, em julho de 2012 o número médio de usuários por dia útil era de 1.200. A capacidade total é de até 5 mil usuários simultâneos. 0

 

Considerações finais
As cidades mencionadas neste artigo realizaram um esforço para expandir o acesso às novas tecnologias, suprindo uma demanda por conexão que lhe é decorrente [21]. As iniciativas do poder público em curso nessas grandes cidades têm em comum a utilização de espaços que atendam ao maior número possível de pessoas – locais de livre circulação – combinada à conexão a partir de equipamentos públicos, como centros comunitários e bibliotecas. 0

 

A estratégia de disponibilizar inicialmente o acesso em regiões que concentram a maior circulação de cidadãos é compreensível quando é avaliada a aplicação dos recursos públicos e os resultados possíveis. Entretanto, é preciso observar que esta lógica pode prejudicar as regiões mais periféricas e menos povoadas, que tradicionalmente possuem a pior infraestrutura em se tratando dos demais serviços públicos. 0

 

Outra característica comum é a necessidade de cadastro dos usuários dos serviços. Se a lógica tradicional de utilização de serviços públicos, no geral, requer o cadastro dos cidadãos usuários, no caso específico do acesso à Internet torna-se importante garantir a privacidade das informações pessoais e da própria utilização do acesso via redes gratuitas municipais. Outro aspecto comum é o limite em relação ao acesso a conteúdos de caráter pornográfico, violento, preconceituoso ou similar. Compreende-se tal imposição diante do fato de que redes públicas não devem contribuir para impulsionar conteúdos e práticas eticamente questionáveis. 0

 

A capacidade de tráfego de cada cidadão conectado também se mostrou limitada em todos os programas. A capacidade variou, por exemplo, entre 256 Kbps (Barcelona) e 512 Kbps (Taipei). Pode-se concluir que tal iniciativa busca ampliar a quantidade de usuários conectados. O que por um lado é importante no sentido de permitir um acesso da população em maior número, por outro impede uma série de usos que demandam maior capacidade de tráfego na Internet. Esta é, sem dúvida, uma das principais questões a serem avaliadas no planejamento de cada rede Wi-Fi municipal. 0

 

Os investimentos necessários para a implantação de redes Wi-Fi variam principalmente em função da área em que o serviço está disponível. O investimento realizado pelas cidades de Barcelona, de cerca de 2,5 milhões de euros em três anos, e Taipei, de aproximadamente 4 milhões de dólares anuais, mostraram-se os mais elevados entre os pesquisados. Tal montante, entretanto, não pode ser considerado um valor elevado para municípios como os pesquisados, que possuem orçamentos significativos. 0

 

As experiências descritas comprovam uma oportunidade dos sistemas Wi-Fi, que combinam sofisticação tecnológica, baixo preço e simplicidade regulatória, facilitando a implantação de políticas de acesso à Internet planejadas em âmbito municipal. Estas características estão ligadas diretamente à ampliação do uso de dispositivos móveis, que permitem cada vez mais a utilização de redes sem fio para o acesso à Internet. 0

 

Os programas municipais verificados estão sendo implementados em cidades de grande relevância de países que já apresentam média ou alta penetração do acesso à Internet, como Taiwan e Finlândia, com 46% e 84% da população conectada, respectivamente. Observa-se que iniciativas de rede Wi-Fi são rea­lizadas também em cidades localizadas em países que já avançaram em termos da ampliação do acesso. 0

 

Com isso, conclui-se que as iniciativas do poder público municipal são justificáveis também em cidades que ainda precisam alavancar em alto grau o acesso à Internet. Portanto, pode-se afirmar que a participação do poder local na ampliação do acesso à Internet via redes Wi-Fi é uma necessidade em municípios de diferentes perfis. 0

 

Estudos [22] recentes concluem que a expansão da Internet no Brasil sofre limitações de acesso, requerendo investimento público principalmente em infraestrutura. Combinada a uma política mais ampla, a instalação de redes wireless, subsidiada pelos governos locais – cuja tecnologia disponível é economicamente viável –, contribuiria para criar ambientes não restritos à oferta e à competição dos prestadores privados de serviços de Internet. 0

 

Referências

BAR, François; GALPERIN, Heman. Geeks, burocratas e cowboys: criando uma infraestrutura Internet, de modo wireless. In: CARDOSO, Gustavo; CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede: do Conhecimento à Ação Política. Debates Presidência da República. Portugal: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 2006.

CHAN, Ming-Chang. The impacts of wireless city project: the case study of Taipei. Trabalho apresentado no 44º Encontro Anual da Japan Section of Regional Science Association Internacional. Fukuoka, 2007. Disponível em <http://jsrsai.envr.tsukuba.ac.jp/Annual_Meeting/M44/resume_d/rD07-2_chan.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2012.

CHOU, Yuntsa. A seamless city: the case study of Taipei’s Wifi Project. Trabalho apresentado no 16th European Regional Conference ITS. Porto, 2005. Disponível em <http://userpage.fu-berlin.de/jmueller/its/conf/porto05/papers/Chou.pdf>. Acesso em: 30 jul. 2012.

GONZÁLEZ, Jorge Infante. Análisis de la dinámica y viabilidad del despliegue de redes públicas inalámbricas basadas en el espectro de uso libre. Tese de Doutorado, Universitat Oberta de Catalunya, Barcelona, 2008. Disponível em: <https://dl.dropbox.com/u/13155514/Tesis%20J%20Infante%20%20%28UOC%2C%20Mayo%202008%29.PDF>. Acesso em: 4 de jul. 2012.

LEMOS, André. Cidade e mobilidade: telefones celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais. Revista Matrizes, nº 1, p. 121-137, outubro de 2007.

 

Endereços eletrônicos

Comissão de Mercado das Telecomunicações (CMT) – Espanha
<www.cmt.es>

Comissão Europeia de Estatística (Euro Statistics) – União Europeia
<http://ec.europa.eu/eurostat/>

Departamento de Estatísticas da Finlândia (Statistics Finland) – Finlândia
<http://www.stat.fi/index_en.html>

Departamento Nacional de Estatísticas – República da China (Taiwan)
<http://eng.stat.gov.tw/>

Instituto Nacional de Estatística (INE) – Espanha
<www.ine.es>

Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee) – França
<http://www.insee.fr/fr/>

Mapa da rede de acesso Wi-Fi de Helsinque – Finlândia
<http://ptp.hel.fi/wlan/>

Paris WiFi – França
<http://www.paris.fr/wifi>

Programa Barcelona WiFi – Espanha
<www.bcn.cat/barcelonawifi/es>

Rede pública Wi-Fi de Taipei – Taiwan
<http://www.tpe-free.taipei.gov.tw/TPE/>

Site oficial da cidade de Helsinque – Finlândia
<http://www.hel.fi/hki/Helsinki/en/Etusivu>

 


[1] Algumas tecnologias mais recentes de redes Wi-Fi sem fio, na frequência 802.16x (também conhecida por WiMax) já permitem ligações ponto a ponto a uma distância de 70 quilômetros, mas o serviço ainda não é predominante.

[2] Estima-se que as despesas com cabeamento chegam a três quartos dos custos de instalação das redes de telecomunicações (Bar & Galperin, 2006, p. 293).

[3] Mais informações em <http://www.wi-fi.org>. Acesso: 1 mai. 2012.

[4] Instituto Nacional de Estadística (INE). Mais informações em <http://www.ine.es>. Acesso em: 4 jun. 2012.

[5] Segundo a Comisión del Mercado de Las Telecomunicaciones (CMT), órgão regulador independente dos mercados de comunicação eletrônica da Espanha, a velocidade de aproximadamente 70% das linhas fixas de banda larga do país – que somam um total de 10,6 milhões (incluindo contas residenciais e de negócios) – não ultrapassa os 10 megabits por segundo (Mbps). Disponível em <http://cmtdata.cmt.es/cmtdata/jsp/inf_anual.jsp?tipo=1>. Acesso em: 8 abr. 2012.

[6] Comisión del Mercado de Las Telecomunicaciones (CMT). Mais informações em  <http://www.cmt.es>. Acesso em: 4 jun. 2012.

[7] Tradução livre do autor para “Barcelona WiFi quiere cumplir el objetivo de ser uno de los principales instrumentos del fomento del uso social de las nuevas tecnologías de la información y el conocimiento”.

[8] O Barcelona WiFi informa que o limite de velocidade em seus pontos de acesso é definido pelas normas da Comisión del Mercado de Las Telecomunicaciones (CMT), como forma de não afetar a estrutura da organização dos serviços privados: <http://www.bcn.cat/barcelonawifi/es/faqs.html>. Acesso em: 14 jun. 2012.

[9]  Tradução própria do original em espanhol: “En la actualidad, con la situación económica mundial es cierto que nos hemos visto obligados a optimizar nuestros recursos para poder propiciar el servicio lo más eficiente posible. Esto ha implicada el hecho de tener que redimensionar nuestra red y realizar una evaluación de punto por punto del servicio”.

[10] Disponível em  <http://eng.stat.gov.tw/ct.asp?xItem=6503&CtNode=2202&mp=5>. Acesso em: 9 abr. 2012.

[11]  Disponível em <http://eng.stat.gov.tw/public/data/dgbas03/bs2/yearbook_eng/y127.pdf>.  Acesso em: 9 abr. 2012.

[12]  Ranking recente da consultoria A. T. Kearney confirmou a cidade como a terceira mais globalizada, em levantamento que observa os critérios de atividade empresarial, capital humano, fluxo de informações, experiência cultural e influência política. Disponível em <http://www.atkearney.com/index.php/Publications/2012-global-cities-index-and-emerging-cities-outlook.html>. Acesso em: 9 abr. 2012.

[13]  Segundo o recenseamento de 2009, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), o município de Paris tem população total de 2.257.981. Disponível em <http://www.insee.fr/fr/ppp/basesdedonnees/recensement/populationslegales/commune.asp?annee =2009&depcom=75056>. Acesso em: 9 abril 2012.

[14]  Ver em <http://appsso.eurostat.ec.europa.eu/nui/show.do?dataset=isoc_ci_in_h&lang=en>. Acesso em: 9 abr. 2012.

[15]  Institut National de la Statistique et des Études Économiques (Insee). Mais informações em <http://www.insee.fr/fr/>. Acesso em: 16 abr. 2012

[16]  O país faz fronteira com a Noruega ao norte e com a Suécia a oeste, respectivamente primeira e nona nações em índice de desenvolvimento humano, segundo a Organização das Nações Unidas em 2010. Nesta lista, a Finlândia também ocupa uma posição privilegiada, no 16º lugar. Ver em  <http://www.pnud.org.br/>. Acesso em: 9 abr. 2012.

[17]  O Statistics Finland, departamento nacional de estatísticas do país, informa que a população total em 2011 era de 5,4 milhões de pessoas. Helsinque possui 595 mil habitantes, mas conurbada às cidades vizinhas de Espoo, Vantaa e Kauniainen, atinge população de mais de um milhão de habitantes. Dados disponíveis em <http://www.stat.fi/til/vrm_en.html>. Acesso em: 9 abril 2012.

[18]  Disponível em <http://appsso.eurostat.ec.europa.eu/nui/show.do?dataset=isoc_ci_in_h&lang =en>. Acesso em: 10 abr. 2012.

[19]  Mais informações da Statistics Finland em <http://www.stat.fi/til/vrm_en.html>. Acesso em: 9 jun. 2012.

[20] Através do seguinte endereço eletrônico: <http://ptp.hel.fi/wlan/index_en.html#>. Acesso em: 3 jun. 2012.

[21]  Dados da União Internacional das Telecomunicações (UIT) estimam que mais de 17% da população mundial já conta com Internet banda larga móvel, desde o seu surgimento em 2007. A ascendência é ainda maior no uso dos telefones celulares, que em números absolutos chega a uma proporção de 80% da população. Disponível em <http://www.itu.int/ITU-D/ict/statistics/>. Acesso em: 5 abr. 2012.

[22]  Ver comunicado do Ipea, nº 46, “Análise e recomendações para as políticas públicas de massificação de acesso à Internet em banda larga”, de 26 de abril de 2010. Disponível em <http://agencia.ipea.gov.br/images/stories/PDFs/100426_comunicadodoipea_n_46.pdf>. Acesso em 9 abr. 2012.

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